9 de dezembro de 2012

A veia que eu desconhecia

Vou recordar para sempre o dia 1 de Dezembro de 2012. Não por já não termos este feriado no próximo ano mas porque foi a minha primeira experiência oficial como autora, neste caso, de haiku

Para quem não sabe, e citando a Prof. Leonilda Alfarrobinha, "um haiku é um pequeno poema constituído por dezassete sílabas distribuídas por três segmentos métricos de cinco, sete e cinco sílabas (...) É um dos mais notáveis géneros poéticos da literatura universal e, possivelmente, aquele que apresenta a forma de expressão mais breve e concisa".

Apesar da simplicidade na forma, um haiku é dotado de uma essência rica. Este poema "nasce de um acontecimento vivenciado, surge a partir de um momento concreto que se viveu e que impressionou os nossos sentidos e o nosso espírito". Nele, são visíveis determinadas qualidades: "a sensibilidade relativamente à natureza, a delicadeza e o respeito por tudo o que é frágil, o despojamento e a riqueza interior, a sobriedade e o requinte, a leveza proveniente da inconstância e da mudança presentes no mundo".

A iniciativa, intitulada "Haiku - 43 poemas a Lisboa", esteve a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, através do Departamento de Acção Cultural, em conjunto com a Embaixada do Japão. Podia escrever-se tanto em português como em japonês, e os poemas seleccionados passariam a fazer parte de um pequeno livro distribuído à entrada do Teatro Turim, o local onde decorreu o evento.




Cada autor leria o seu poema seleccionado. Houve quem tivesse lido outros da sua autoria, falado da sua experiência como escritor, explicado o significado dos seus haiku, enfim. Tal como constatou a Carolina Vargas, a variedade de pessoas naquela sala foi, de facto, o mais interessante desta iniciativa. Quem mais me surpreendeu foi um homem de 85 anos. A tremelicar, subiu ao palco e declamou o seu poema escolhido e mais alguns. A descer, quase caiu. Era de Letras, e só há pouco tempo se tinha deparado com um género de poesia que lhe era desconhecido. Uma pessoa de idade com uma mente aberta. Um exemplo.

Eu arrisquei com um grupo de cinco poemas, dentro dos quais um estava escrito com caracteres. Não vou colocá-lo aqui por o considerar fraco mas apresento-vos os outros:

Sete colinas
Cidade protegida
Pela oração

Casa de fados
Cantam-se os anseios
Há liberdade

Crise! Contudo
Joga-se à macaca 
Nesta calçada

Tu abraças-me
De barco ou a sonhar
Amo-te, Tejo




Foi o último da lista que integrou a compilação, e qual foi o meu espanto quando, à chegada, recebi uma folha quadrada que era nada mais nada menos do que a folha do livro com o meu poema ampliada. Escusado será dizer que, a esta hora, a dita cuja já está emoldurada na parede.

Como lembrança, também foi entregue a cada participante um poster da cidade de Kyoto coberta de neve, ou não estivesse a Embaixada do Japão envolvida nesta iniciativa literária. Muito obrigada ao povo nipónico por se mostrar sempre tão generoso neste tipo de eventos.

Estou bastante feliz, orgulhosa e agradecida por ter marcado presença naquela manhã cultural. Sem o apoio e a companhia da minha mãe e da minha irmã, não teria sido tão maravilhoso, por isso, obrigada. E também gostei imenso de ter encontrado a Carolina, cujo haiku foi altamente apreciado. Aproveito para informar que, sobre o mesmo assunto, podem ler a mensagem dela aqui.

Que para o ano haja mais iniciativas que nos encham o espírito e nos coloquem em comunhão com outros povos e outras culturas, é um dos meus desejos para 2013.

24 de novembro de 2012

Memento

Para recordar o inesquecível.

Foi por acaso que o passado domingo ficou marcado pela nostalgia. Um sentimento difícil de verbalizar, como qualquer saudade. Foram anos de aprendizagem de valores e matérias, experiências enriquecedoras e amizades que se mantêm sólidas. Houve momentos menos bons, claro, mas a lei básica do mundo físico e espiritual é o equilíbrio; sem os pequenos episódios de tristeza, dúvidas, incerteza ou solidão, não teria aprendido a valorizar o que de tão bom o Colégio do Bom Sucesso me ofereceu. São sementes que continuam a germinar, dando frutos muito doces e sumarentos.

30 de setembro de 2012

A lei do mata e esfola

Atenção! Isto não é uma mensagem sobre política.

Eu não costumo comprar revistas mas a Super Interessante nº 169 (Maio 2012) chamou-me à atenção devido a uns artigos científicos. Qual é o meu espanto quando me deparo com uma introdução à respectiva edição ainda mais apelativa do que os ditos artigos. Isto porque tinha muito de verdade. E porque quase podia ter sido escrita por mim, visto que a problemática sobre a qual o texto incide é algo que me perturba diariamente.


3 de setembro de 2012

Encartada!

Dia 16 de Agosto de 2012.

Levantada às 05h20.
Nervos à flor da pele.
Saída da casa da Costa às 06h35.
Chegada à casa de Lisboa às 07h00.
Nervos à flor da pele.
Necessidade de ir à casa-de-banho.
Aliviada, menos de uma coisa.
Nervos à flor da pele.
Saída da casa de Lisboa às 07h30.
Chegada à escola às 07h45.
Nervos à flor da pele.
Aula a começar às 08h00.
Percurso das Portas de Benfica.
Nervos à flor da pele.
A Tatiana vai atrás.
A aula corre mais ou menos.
Nervos à flor da pele.
Dou lugar à Tatiana e à sua aula.
"Eu quero ser a segunda", disse.
Nervos à flor da pele.
Por acaso, neste momento não...
Porque eu queria ser a primeira.
E fiquei feliz por não ter de impor a minha vontade.
Chegada ao centro de exames.
Nervos à flor da pele.
Nervos à flor da pele.
Nervos à flor da pele.
Nervos à flor da pele.
Nervos à flor da pele.
Percurso da Amadora.
Não é o de Benfica! Yes!
Nervos à flor da pele.
Ligo o carro às 10h14.
Às 10h15, o meu irmão envia-me energia positiva.
Nervos à flor da pele.
Nas perguntas sobre o painel de instrumentos, já passei.
"Vá com calma e a cumprir o Código da Estrada."
Nervos à flor da pele.
Que se foram dissipando...
O examinador tinha cara de mau.
Mas, na verdade, era simpático.
"Desenvolva!"
"Sim, senhor!"
"Desenvolva!"
"Sim, senhor!"
"Desenvolva!"
"Sim, senhor!"
Estacionamento perpendicular e missão cumprida.
Yes! Não saiu o contorno do lancil!
Nervos à flor da pele.
Pelo menos, não troquei com a Telma.
Penso que foi desta.
Nervos à flor da pele.
Era a vez da Tatiana.
Infelizmente, ela trocou com a Telma.
Auto-avaliação.
"Eu até acho que correu bem, fora uma ou outra situação porque estava nervosa..."
"Foi fraquinho mas vou dar-lhe o benefício da dúvida."
"Obrigada."
Passei ou não?
Saí com a Telma.
A Tatiana ficou no carro.
"Parabéns, Ana."
Ah! Passei! Yay!

A única tristeza no meio de tanta felicidade foi a despedida da Telma Simões, uma instrutora cinco estrelas, tanto a nível pessoal, como profissional. Fica o feedback para quem optar pela escola Segurança Máxima de Miraflores.

Obrigada pelo apoio, pela força e pelas mensagens de congratulações. Para mim, foi uma grande vitória porque era algo que desejava muito mas que me custou a obter.




Aparte: Havia um título ainda mais óbvio para esta mensagem. Mas eu sou teimosa.

5 de julho de 2012

Back in style com o Peace Boat!

Bem... nenhuma razão pode justificar a minha ausência, por isso, desculpem.

Falando de coisas bonitas, falta neste espaço o relato de um dos dias mais maravilhosos da minha vida: a visita ao Peace Boat no dia 15 de Junho e a aventura que se lhe antecedeu.

Citando o site oficial, "o Peace Boat é uma organização internacional, não-governamental, sediada no Japão, cujo objectivo é promover a paz, os direitos humanos, o desenvolvimento sustentável e o respeito pelo meio ambiente". Na sua 76ª viagem por cidades asiáticas, americanas e europeias, o barco aportou em Lisboa, sendo esta a oportunidade que tinha de aproveitar para conviver com japoneses e pisar um cruzeiro. Assim foi, graças à professora Yosoi Toda e à minha amiga Maria João. Um grande obrigada às duas. :)




Foi este o programa de festas:


09h20 - Encontro junto ao portão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. De seguida, uma visita guiada às instalações, e a fusão das culturas portuguesa e japonesa numa sala de aula através do convívio e de actividades. 

13h00 - Almoço num restaurante tipicamente português.

14h30 - Visita turística por Lisboa de autocarro e a pé.

17h30 - Visita ao Peace Boat, com a oferta de um buffet de comida japonesa.


Foi emocionante quando o grupo de quinze japoneses de diferentes faixas etárias chegou (atrasado). Rapidamente foram distribuídos por grupos de dois ou três portugueses, que os acompanhariam durante a sua jornada lisboeta. Comigo, com a João e com o senhor Borges, ficariam duas senhoras já de uma certa idade. Uma delas era a Kyouko Tsukada, a outra não me lembro, mas eram muito simpáticas, embora a primeira fosse muito mais extrovertida do que a segunda.





Durante a visita guiada ao edifício, íamos trocando umas palavritas em japonês (em inglês, não dava). Não me lembro de ter dito tantas vezes, num só dia, wakarimasen ("não estou a perceber") ou hai ("sim"). Por pena ou simpatia, sempre que não entendia o que estava a dizer, a senhora Kyouko mostrava um sorriso aberto e agarrava-me no braço, como quem diz "deixa lá, querida". Uma ou outra frase consegui dizer como deve de ser; o resto foi por gestos. Foram momentos de interacção interessantes, que ainda hoje me fazem rir quando me lembro do quão atrapalhadas eu e a João ficámos em certos momentos. Mas elas eram compreensivas. Tive a prova disso quando, ao chegar a casa, me lembrei do significado da palavra sakka, proferida pela senhora mais velha, curiosa por saber que autores estudávamos. E eu falei-lhe das matérias, por isso, respondi-lhe algo como "comidas", "bebidas", "kanji"...  Ela soltou um "ah..." a sorrir.

Já dentro da sala de aula, em primeiro lugar, assistimos a um pequeno concerto de fado, fortemente aplaudido pelos nossos amigos nipónicos. Tiraram muitas fotos e reparei que a senhora Kyouko gravou um pequeno excerto das músicas com o telemóvel. Depois foi a vez de eles mostrarem um pouco da sua cultura musical. A guia turística tocou piano e os outros cantaram em coro uma música que se chamava "Terra Natal", se não me engano. Foi um momento emocionante, do qual tenho pena de não ter uma recordação palpável. 

Após uma apresentação de colegas sobre a intersecção das culturas portuguesa e japonesa, à medida que se vestiam yukata e se treinava a caligrafia com pincel e tinha preta, pudemos conviver uns com os outros, sem nos restringirmos aos grupos pré-formados. Foram minutos muito agradáveis, aos quais sucederam umas lições informais de vocabulário, em que a expressão em português que eles mais gostaram foi "senta aqui" (mais correctamente falando, "sente-se, por favor").





Eu, a João e o Ryou Kanzaki





Um grande fã de "One Piece", Ittetsu Ijuin




A hora de almoço chegou mais depressa do que estava à espera. Fomos bem servidos naquele restaurante localizado na Avenida de Berna, o "Oh! Lacerda": queijo fresco bem temperado para a entrada; pastéis de camarão e de bacalhau, acompanhados de uma colherzinha de arroz de tomate; carne à portuguesa (as batatinhas eram deliciosas); uma fatia de um cheesecake maravilhoso e um café no final, para rematar. Entusiasmado em demonstrar que conseguia falar português, um dos japoneses vasculhou a mochila apressadamente, com o intuito de encontrar a lista de vocabulário e proferir "é derichioso".

Na visita turística por Lisboa, nós, os portugueses, seríamos os guias. A nossa missão seria levar o nosso grupo desde o Príncipe Real, onde o autocarro nos tinha deixado, até à antiga Casa dos Bicos. Estava calorzinho, por isso, passear na Baixa e visitar uma ou outra loja mais característica daquela zona soube muito bem. Tive pena de não ter conseguido satisfazer a sede da senhora Kyouko em conhecer pormenores históricos daquele lugar. Conclusão: não daria uma boa guia turística.



O Castelo de S. Jorge




Finalmente, a parte do dia por que eu mais tinha esperado: a visita ao cruzeiro e a paparoca de luxo. Confesso que considerava o Peace Boat um pouco maior mas adorei a sensação de estar num hotel dentro de um barco. Havia salas para tudo e mais alguma coisa, e três piscinas, umas delas jacuzzi.



O tecto da recepção (adorei este efeito)



A recepção





Teclados... O paraíso







Tanto vento... A escuridão tinha chegado














O buffet marcaria o final deste encontro maravilhoso. Por serem ementas diferentes, portugueses e japoneses tiveram que se separar, mas foi divertido na mesma porque os portugueses que ficaram comigo eram simpáticos e divertidos (a malta que aprende japonês é fixe e ponto final).



Tofu fresco, coberto com gengibre ralado, cebolinho e flocos de peixe, e edamame (feijões de soja)



Onigiri (estavam maciços e muito bons)





Sopa de miso, a minha perdição



Tenpura de gambas e frango panado



Massa udon com flocos de peixe e legumes


Infelizmente, o tempo estava a escassear, portanto, não houve tempo para acabar a refeição. Rapidamente despedimo-nos, tirámos as últimas fotografias e, do cais, gritámos sayounara, acenando adeus.




Quando é que vou voltar a viver uma aventura como esta? Não sei. Do dia 15, guardo memórias, fotografias e um presente muito especial.



Um amuleto de Okinawa para dar sorte, oferecido pela senhora Kyouko 


E espero que assim seja com os nossos amigos japoneses, que guardem os souvenirs que lhes oferecemos com muito carinho.

Até à próxima, pessoal!

またね、 みんなさん!!